As pessoas são, cada vez mais, o centro das opções estratégicas e das políticas a implementar no âmbito do desenvolvimento social e económico.
Efetivamente os cidadãos não se sentem motivados pelos números ou pelas estatísticas, mas sim pela sua qualidade de vida, bem-estar e realização pessoal, sendo uma tendência forte, particularmente dominante, nas novas gerações que entram no mercado do trabalho.
A resposta em termos teóricos é explicitada no âmbito do conceito Sociedade 5.0.
Sociedade 5.01
Este conceito, desenvolvido inicialmente no Japão na década passada resulta das transformações científicas e tecnológicas que fizeram evoluir a sociedade desde as suas origens até à atualidade e que atualmente compreende a fusão entre o mundo real e o ciberespaço integrando de uma forma extensiva as tecnologias de informação criando a possibilidade de uma gestão “super-inteligente” com envolvimento ativo de todos os cidadãos.
Construindo uma Plataforma para a Sociedade 5.0
Há uma necessidade de "sistematização" de serviços e projetos, sistemas mais avançados e coordenação entre múltiplos sistemas e promover os esforços para a construção de uma plataforma comum (uma plataforma de serviços da sociedade superinteligente) em colaboração com a indústria, academia, governo e sociedade.
O objetivo será a avaliação e identificação das diversas necessidades sociais de forma precisa, possibilitando o fornecimento de produtos e serviços mais adequados a cada cidadão, permitindo-lhe atingir uma qualidade de vida de nível superior, com o menor dispêndio de recursos.
Esta não é apenas uma solução técnica e tecnocrata, mas sim de dimensão humana em que as emoções, os afetos e os sentimentos desempenham um papel fundamental, pelo que a cultura e a vida social são aspetos centrais deste modelo.
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1Society 5.0: Aiming for a New Human-centered Society -Japan’s Science and Technology Policies for Addressing Global Social Challenges
As novas opções estratégicas de desenvolvimento
Considerando este novo enquadramento teórico e a experiência de mais de 40 anos de atividade, foi desenvolvido um modelo prático de implementação de estratégias de competitividade dos territórios baseado nas pessoas e nas suas motivações no quadro tecnológico, económico e social atual.
O modelo proposto baseia-se em quatro vetores ou áreas estratégicas de intervenção:
- Sociedade
- Património
- Conhecimento
- Empreendedorismo
Algumas destas áreas são intrínsecas ao território e são diferenciadoras e constituem elementos de valorização territorial e setorial que devem ser preservados e maximizados. Na maior parte dos casos, será a Sociedade e o Património, embora nalguns outros, de modo mais pontual, possa ser o Conhecimento ou o Empreendedorismo.
No modelo que iremos desenvolver, iremos considerar que, no caso do Conhecimento, podemos adquiri-lo externamente, sem necessidade de o inserir de forma “física” no território, e que o Empreendedorismo poderá ser implementado, mobilizado e dinamizado de forma proativa pelos decisores e líderes envolvidos na orientação estratégica do território.
A Sociedade constitui-se atualmente como um fator fundamental de base para o desenvolvimento integrando os diversos atores sociais e as famílias numa comunidade de afetos que garante a dimensão humana e a solidariedade no âmbito das áreas urbanas.
A criação de um sentimento de pertença e a partilha de emoções e de objetivos no âmbito da comunidade, tem vindo a ganhar cada vez maior relevância, num momento em que cada um de nós se tem vindo a sentir mais isolado e, muitas vezes, apenas um número, no meio da multidão.
Esta é uma vantagem competitiva que é cada vez mais valorizada pelos quadros mais qualificados, pelos atores mais criativos e mais inovadores da humanidade, sendo conhecidos inúmeros casos de pessoas com grande sucesso profissional e empresarial que escolhem comunidades com uma escala de maior proximidade e de maior interação para viver e investir.
Outra característica diferenciadora é o Património que poderemos subdividir em Histórico/Cultural e em Natural/Paisagístico.
Ao nível Histórico/Cultural devemos considerar as tradições, a cultura e as manifestações sociais, nomeadamente as atividades festivas, os eventos e o ambiente urbano e monumental que caracteriza o território e a sua população e contribui para o sentimento de pertença e para a qualidade de vida e sustentabilidade da comunidade.
Os recursos naturais e paisagísticos fornecem um conjunto de oportunidades de desenvolvimento económico e de fruição pelos habitantes, visitantes e investidores que corretamente utilizados contribuem para a criação de vivências particulares, experiências únicas e oportunidades de criação de riqueza que possibilitam a manutenção de atividades sociais e de emprego fundamentais numa vida comunitária dinâmica e partilhada.
Se as áreas anteriores estão muito ligadas às condições intrínsecas do território o Empreendedorismo & Inovação estão dependentes das pessoas, nomeadamente dos líderes empresariais, sociais, culturais e políticos que for possível de mobilizar e envolver na estratégia a implementar.
Efetivamente, as empresas são fundamentais para a criação de riqueza, para a criação de emprego e para a inovação. No entanto, nem sempre se conseguem os melhores resultados.
A necessidade de apostar em tecnologias de futuro, em investimentos que potenciem os recursos humanos e garantam a sustentabilidade e equilíbrio ambiental é fundamental neste novo quadro de competitividade que estamos a viver.
A capacidade de atrair esse tipo de investimentos terá de ser baseado na oferta de condições “ambientais” a essas empresas que lhe garantam vantagens competitivas únicas, nomeadamente o acesso a conhecimento, tecnologia, laboratórios, recursos humanos
qualificados ou outros fatores únicos, como matérias-primas, logística ou redes de comunicação, entre outros.
A definição de projetos mobilizadores que potenciem essas competências do território e criem as condições de base para a instalação dessas empresas, é fundamental para os territórios alterarem o seu modelo de especialização baseado nas indústrias e economia mais tradicional e abraçarem as tendências emergentes.
Até muito recentemente o Conhecimento era de difícil acesso e limitado a alguns iluminados e instituições poderosas, mas, atualmente, com o desenvolvimento da Sociedade da Informação, a sua acessibilidade e utilização é possível a qualquer um com um computador e uma ligação à internet.
Hoje em dia, temos cientistas espalhados por todo o mundo, trabalhando com as mais prestigiadas instituições científicas, colaborando e desenvolvendo conhecimento e tecnologias a partir dos locais mais improváveis.
Naturalmente que os grandes laboratórios e equipamentos, continuam concentrados em alguns locais, mas a possibilidade de aceder aos seus resultados, de colaborar ou participar em projetos conjuntos alargou-se de forma irreversível, sendo que muito dos seus investigadores já não se encontram fisicamente, a maior parte do tempo, nas suas instalações.
Desta forma, este recurso fundamental, que não estava disponível em muitos territórios, tornou-se acessível e pode ser integrado nos projetos de desenvolvimento estratégico, possibilitando a criação de condições de envolvente favoráveis à ciência, aos laboratórios de investigação e ao ensino para desenvolverem a sua atividade em locais menos óbvios, eventualmente de forma pontual, intermitente ou em modo virtual, criando novas centralidades e oportunidades de diferenciação competitiva.
Conclusão
O presente modelo, reforça o conceito proposto por Richard Florida² de Tolerância, Talento e Tecnologia como elementos fundamentais do desenvolvimento, incluindo a componente de afetividade e de integração social na comunidade como aspetos diferenciadores num mundo baseado nas tecnologias de informação e no ciberespaço em termos de relações económicas, tecnológicas e científicas, valorizando as comunidades e a riqueza do seu património como elementos de coesão social que serão o cimento da sociedade baseada nas pessoas e na sua qualidade de vida.
João Filipe Jesus
Victor Cardial
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²“Technology, Talent, And Tolerance” Richard Florida - Novembro, 2000. “The nation's leading high-tech centers are places where people from virtually any background can settle and make things happen”